No finalzinho do ano passado, dia 29 de Dezembro, o Observatório do Cinema destacou o vazamento do piloto de Colony, nova série do canal USA, que tem despontado com produções muito bacanas nos últimos anos (vide Mr. Robot). Produzida por um dos co-criadores de Lost, emprestando dela o protagonista Josh Holloway (o eterno Sawyer) e ainda contando com Sarah Wayne Callies, velha conhecida dos fãs de The Walking Dead, Colony prometia ficção científica com um cérebro, e foi isso que entregou.

A audiência, infelizmente, não correspondeu. A cada semana pontuando menos nas escalas de público, Colony por um tempo pareceu condenada a ser uma “one-season wonder” (aquela série ótima que é cancelada no primeiro ano, sabe?). Num arroubo de ousadia, no entanto, a USA resolveu olhar para a ótima recepção crítica da série, e não para a audiência – e Colony ganhou uma renovação no último dia 24 de Fevereiro, logo antes da exibição do 7º episódio da temporada.

Na trama da série, Katie Bowman (Callies) é metade de um casal que tenta se virar como pode em uma Los Angeles invadida por forças alienígenas que dividiram o mundo todo em “conjuntos habitacionais” controlados com mão-de-ferro por oficiais escolhidos a dedo pelos próprios invasores. Quando o marido de Katie, Will (Holloway), é cooptado por tal governo para um trabalho perigoso em troca de informações sobre um dos filhos do casal, que acabou ficando em outro desses “conjuntos habitacionais”, Katie secretamente contata a violenta resistência que tenta libertar a humanidade do controle desses invasores e se torna uma informante importante para eles.


Nesta quinta-feira, dia 17 de Março, o primeiro ano de Colony terminou nos EUA, com o episódio “Gateway”. Sabe o que isso significa, né? Significa que agora é a hora certa para pegar todos os 10 episódios da primeira temporada e se atualizar nessa pequena maravilha que o escritor Stephen King, de clássicos do terror como Carrie a Estranha e Cemitério Maldito, chamou de “algo realmente especial: esperta, cheia de suspense, subversiva… de provocar pensamento”.

Precisa de mais incentivo? Aqui vão alguns motivos para você começar já a assistir Colony:

1) Sarah Wayne Callies

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É claro que ela já era excelente como Lori em The Walking Dead, onde ficou entre 2010 e 2013. Em seu papel de co-protagonista em Colony, no entanto, Callies mostra mais garras do que esperávamos que ela tivesse. Extraordinariamente expressiva e quase sempre com os nervos à flor da pele, a atriz entrega uma atuação que é praticamente um ato de equilibrismo, constantemente retratando Katie como uma mulher no limite, emprestando-lhe um olhar nervoso e uma expressão calculista que, extraordinariamente, não nos faz desgostar dela mesmo assim.

Callies também é durona quando é preciso, tomando decisões enérgicas que ajudaram a série a desenhar melhor a personagem no decorrer desses primeiros 10 episódios. Sua performance é, apesar do excelente trabalho de Josh Holloway como Will, o elemento mais importante de Colony nesse momento – de certas formas, a série da USA vive e morre pela presença de Callies na tela, e a atriz carrega essa responsabilidade com graça e talento. Em um mundo ideal, seria presença carimbada no Emmy desse ano.

2) Crítica política

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Não é a toa não que, nos seus elogios à Colony, Stephen King usou palavras como “subversiva”. Apesar de ser tremendamente divertida em certos sentidos, e cheia de referências e derivações espertas, a série do USA também é, essencialmente, uma crítica política muito séria e interessante de se acompanhar. No mundo retratado nessa ficção científica, uma potência estrangeira (no caso, alienígena) invade os EUA, divide o país em territórios que não respeitam as antigas fronteiras já estabelecidas, e escolhe um punhado de aristocratas para compor o governo enquanto o resto da população vive à mercê de suas vontades.

Se isso não é o bastante para você fazer os paralelos, o uso de termos como “zona verde” talvez seja: em muitos sentidos, Colony é a história de como os americanos reagiriam se alguém fizesse com eles o que eles fazem no mundo inteiro, especialmente no Oriente Médio. A série desafia o público ocidental a tratar a resistência armada como terroristas quando o território que eles estão tentando recuperar para si é o americano, e a vermos aqueles que colaboram com as forças invasoras como heróis no mesmo contexto. É uma inversão de valores esperta que está no coração de Colony, e de sua qualidade provocativa de narrativa.

3) Resistência x Governo

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O embate entre as forças de colaboração com o governo e as forças da resistência, lideradas pela misteriosa (no início) figura de Geronimo, toma contornos ambíguos em Colony. Na visão da série, o uso da violência e da propaganda são armas para ambos os lados – os pôsteres colados nas paredes da cidade são um daqueles detalhes no fundo dos cenários em que os personagens transitam que fazem toda a diferença. Em Colony, poder essencialmente traz corrupção, e isso significa que os métodos brutais e questionáveis não são reservados apenas para as forças invasoras e seus colaboradores.

Cada um dos lados tem um argumento humanitário válido: você escolheria uma vivência segura e cerceada, ou livre e conseguida através da guerra? Não é que Colony queira responder a essa pergunta, mas quer que reconheçamos que é uma pergunta válida a se fazer.

4) Futuro distópico adulto

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Nós não somos haters de todas as franquias de futuro distópico dirigidas ao público jovem/adolescente. Jogos Vorazes, por exemplo, é tremendamente bem escrito e tem uma protagonista cativante tanto nos livros quanto nos filmes, materializada no talento de Jennifer Lawrence. Mesmo assim, é refrescante e interessante ver uma história do estilo voltada para adultos novamente, e o que isso significa essencialmente é que o idealismo adolescente e a jornada de amadurecimento que existe nessas histórias são substituídos pelo conhecimento amargo de todas as áreas cinzas da humanidade e da sociedade, e por um arco de personagem mais complexo e original.

O casamento entre Will e Katie, a forma como os dois se amam e confiam um no outro, vai se complicando conforme o envolvimento deles em lados opostos da disputa por poder se intensifica e se torna mais ramificada. Desconfiados, sempre com os nervos à flor da pele, os dois também buscam recuperar o filho que perderam durante a ocupação, o que adiciona um tempero de melancolia e uma motivação forte por trás de cada ato. É um casamento imperfeito, cheio de minúcias e pequenas (grandes) falhas – nada mais adulto, e mais interessante em termos de narrativa.

5) Peter Jacobson

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Talvez você o conheça apenas como o Dr. Taub de House, ou como Lee Drexler em Ray Donovan. A presença de Peter Jacobson no universo da televisão americana já é bastante marcante, e o governador Alan Snyder, que ele interpreta em Colony, e mais um para a galeria de personagens memoráveis da sua carreira. Com todos os tiques e o estilo de um dos políticos escorregadios de universos ficcionais por aí, Snyder aos poucos vai se revelando como um aristocrata sem muito contato com a realidade de suas ações, mas que acredita estar fazendo o melhor para manter a paz e a “qualidade de vida” dentro do território que os alienígenas deram para ele controlar.

O personagem também requer uma boa dose de mistério, e Jacobson faz isso muito bem, escondendo por trás de alguns momentos tudo o que Snyder sabe, mas ainda não quis revelar aos nossos protagonistas ou aos outros personagens com quem interage. Muito como sua colega de elenco Sarah Wayne Callies, Jacobson dá o tom para a narrativa de Colony e a segura nas costas com facilidade, entregando uma performance coesa e, em certos momentos, fascinante. É um prazer assisti-lo, como quase sempre é.

6) Ficção científica de qualidade na TV

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Alienígenas misteriosos, tecnologia futurista, um governo totalitário desafiado por alguns rebeldes. Apesar de não fazer muito barulho a respeito disso, Colony é classicamente uma ficção científica, com todos os ingredientes necessários – e ficção científica de qualidade na TV é um artigo raro. Apesar do cinema independente ter visto um aumento no investimento no gênero nos últimos anos, na televisão as produções do estilo ainda estão essencialmente na SyFy, cujo esquema de produção produz alguns bons títulos em meio a uma enxurrada de outros que beiram o “tão-ruins-que-são-bons”.

Colony, por se localizar no campo em crescimento do canal USA, e por abordar as convenções da ficção com tanta franqueza enquanto mantem uma espécie de realismo fantástico em seu tom, é um achado que pode influenciar outras emissoras a investirem mais no gênero sem a necessidade da ligação com uma marca estabelecida, como a desastrosa Minority Report, da Fox. E quem tem a ganhar com a criação de mundos originais e interessantes de ficção somos nós, espectadores.

7) Cenas de ação

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Talvez Colony não seja a série com as melhores cenas de ação, ou aliás as mais frequentes, mas sempre que a trama exigiu, os diretores e a equipe de dublês da produção entregaram peças competentes. Uma perseguição entre Will e um criminoso rendeu um passeio por um mercado de rua abarrotado e pelas vigas de um prédio meio abandonado; a tentativa de sequestro de Snyder incluiu muitos tiros de calibre alto e ações estratégicas brutas por parte da resistência. O episódio “Yoknapatawpha”, sexto da temporada, veio com o dobro de ação que estamos acostumados a ver em Colony, e o resultado foi uma pequena pérola de tensão e adrenalina.

Fique com o trailer do finale da temporada: