Arábia marca um interessante amadurecimento de ideias cinematográficas que rondam os títulos mais potentes de uma produção recente brasileira. Filmes que dialogam com uma estética do real, reencenando fatos cotidianos de uma realidade, jogando com a veracidade das representações, chamando os personagens reais para serem os atores de suas narrativas, rachando por completo uma linha entre o documentário e a ficção, um poder de fabular sobre a própria realidade. Curiosamente, muito dessa produção, que baseia sua ficção na honestidade com a realidade, vem de Minas Gerais com expoentes como André Novais, Marília Rocha, João Dumans e Affonso Uchoa, estes últimos diretores do também mineiro Arábia.

O longa concentra suas locações justamente nas mais variadas cidades de Minas, principalmente nos polos industriais, em particular a cidade de Ouro Preto e sua grande produção de alumínio. Arábia é sobre o mundo do trabalhador brasileiro, daquele da classe mais operária, de carregadores de cimento à operadores de máquina, realidade que às vezes parece desconectada com os avanços tecnológicos, mas ainda extremamente presentes no Brasil. O longa poderia apenas se valer de uma importância temática, fazer de sua narrativa uma chamada de atenção para uma relevância social, um filme de realismo e conscientização, todavia os diretores entendem a superficialidade de obras como essa, que parecem mais se proteger com sua crítica, do que realmente entender e mergulhar naquela temática.

A impressão que fica é quão potente foi a experiência da dupla de diretores nesse cinema de uma aproximação honesta da realidade que é impossível seguir por outros caminhos. Uma experiência de filmes que não buscam recriar verdades, mas sim reconstituí-las, como um processo de ficção em que a realidade se torna a narrativa, não o ficcional tenta chegar ao real, operações totalmente inversas. Há toda uma estética do não rebuscamento, de algo que parece ao mesmo tempo estudado, premeditado, aliado a uma sensação despojada, que não utiliza as luzes construídas, nem grandes movimentos de câmera, mas a sensação é sempre de uma incrível participação do espectador nas vidas que vê em cena, como se realmente estivesse partilhando de momentos cotidianos, o que diz uma enormidade de fatos sobre aqueles retratados.


Nesse jogo, há ainda o papel do não-ator que aqui não busca repetir com perfeição seu papel, mas deixa visível sua representação, como se aquele sujeito tivesse consciência da realidade do texto, como se sua performance, desconectada de um naturalismo puro, fizesse uma reflexão em duas mãos sobre o que fala, para ele mesmo e para o público. Há também um distanciamento da narrativa premeditada, cheia de conflitos, havendo uma busca por investigar as circunstâncias daquela vida, no caso de um trabalhador.

Por outro lado, em Arábia há uma aproximação deste cinema honesto com uma visão mais classicizante, de uma experiência da construção cênica, do roteiro amarrado e de seu desenvolvimento emocional. Fica evidente como esse casamento funciona, fazendo com que as duas tentativas sejam enriquecidas, um longa que não usa as ferramentas do cinema clássico apenas para facilitar seus percursos narrativos, como também não abre mão de todos os preceitos que cercam aquele tipo outro de cinema, baseado na autoficção de fatos comuns. Essa lógica é fundamental para a compreensão dos objetivos de Arábia e todos seus pontos, uma dose de academicismo ao cinema do despojamento para alimentar suas pretensões.

Conectar o espectador das salas de festivais e circuitos alternativos com a jornada de um trabalhador braçal passa por essas pretensões. Arábia começa acompanhando um adolescente, andando de bicicleta, ao som de uma gostosa música americana, uma cena tipicamente construída, que não tem cara da realidade vista em A Vizinhança do Tigre, por exemplo, outro filme de Affonso Uchoa. Esse garoto, Andre, sente-se isolado em Ouro Preto, distante dos pais ausentes e sem companhia, após uma carona a um operário, ele encontra o diário de Cristiano, na máxima do cinema clássico, o conflito evocativo que chama o espectador para a trama. O garoto passa a ler e o filme torna-se sobre Cristiano e sua vida operária, é nessa dimensão que surge toda a estética da autoficção, da encenação pautada na simples verdade cotidiana, sem grandes discursos ou movimentações. O plano daquilo que é lido é o real, e aquele que lê está no plano ficcional, a mesma relação que se encontra na sala de cinema, o espectador vivendo numa dimensão outra daquele retratado em tela.

Nesse enlace, a força do roteiro organizado surge da leitura do diário, Arábia possui um arco de seu personagem, uma mudança íntima que deve ser evocada a partir das linhas escritas pelo roteiro. A voz sempre em off comentando suas ações faz com que isso se encaminhe, enquanto se vê rastros do cotidiano de Cristiano, mais uma vez a força dessa cinema acadêmico incorporado vem daquela leitura, vem do plano ficcional, uma conversa sutil entre esses dois mundos.

É nesse diálogo que o filme consegue fazer que sua obra não seja somente de superfícies políticas, mas de uma profunda investigação da subjetividade daquele homem. O longa deixa com que esse impulso externo, sua consciência perante o trabalho, esteja também ligado a essa narrativa bem colocada. Nesse ponto ele conta como falta dinheiro em sua trajetória, como sentia a sua própria ignorância naquele seu percurso a procura de trabalhos físico. Mas por outro lado, se há a consciência de seu lugar no mundo no texto que é narrado, as cenas cotidianas encenadas no filme demonstram essa aproximação com o íntimo daquele personagem, mostrando aquilo que gosta de fazer, a forma como pensa, como realmente se manifesta as suas emoções, um filme que aproxima dimensões diferentes naquele mesmo homem – a política e a subjetiva, assim como a do espectador em relação àquele drama – a construção fictícia e a reencenarão do real.

Arábia não tenta fazer de seu protagonista um axioma de uma teoria social, não faz a jornada de Cristiano um exemplar para uma tese política, pelo contrário remonta a singularidade daquele homem. O longa funciona de modo parecido com a música tocada na primeira cena, a obra parece uma balada folk, sem refrão, mas narrando sonoramente fatos de alguém perambulando no interior, causos esparsos unidos por uma estrutura musical. Arábia funciona da mesma forma, a narrativa coesa que ajuda a montar peças com a singularidade daqueles pequenos encontros. Nessas situações o que se vê são momentos de lazer daquele homem, o compartilhamento de ideias e sentimentos com amigos, momentos ruins da vida de Cristiano, ou um simples caminhar da situação. Entende-se aquele homem na junção de sua macro narrativa com esses pequenos momentos, uma simples piada contada no horário de almoço, a discussão com um patrão, ou o alojamento sendo alegrado por seus peões cantando Raul Seixas a plenos pulmões. A música diegética que se combina com a trilha musical e embala a trajetória daquele homem.

Arábia faz com isso um filme repleto de sentimento, em que a sinceridade dessa estética honesta do real combina com a organização de uma narrativa discursiva, que prende, envolve, mas demonstra esse arco do personagem. Arco este que representa o adquirir dessa consciência da subjetividade, não como sujeito somente político, mas como homem que sente, em que o trabalho pesado reflete nas sensações mais íntimas do personagem. Há em Arábia uma narração que contém um lindo texto, que coloca frases de um lirismo absurdo num formato realista, há planos bem filmados, enquadrados e expressivos, mas um cinema maduro só vem com uma humanidade dentro da obra, e é isso que Arábia possui, um filme sobre o homem, seu trabalho e principalmente sua subjetividade.