Tentando não renegar o universo construído por Guillermo del Toro no filme de 2013, Círculo de Fogo: A Revolta, de Steven S. DeKnight (série Demolidor, 2015), atualiza a sua história ao dar um salto de 10 anos no tempo, trocando o submundo, pensado pelo diretor mexicano, por um ambiente revitalizado, com um pano de fundo ainda mais fortalecido por enlaces visuais oriundos de artimanhas computadorizadas, porém todo esse arsenal não empodera o projeto, muito pelo contrário, o direciona a um lugar tão inespecífico, que poderia ser visto em qualquer obra rendida às CGI, em geral utilizadas de maneira afetada.

Se antes os mais afeiçoados às produções tokusatsu, conhecidas por seus monstros e robôs descomunais em batalhas intermináveis, puderam rememorar os seriados japoneses da infância, devido às referências bem alocadas no primeiro filme, agora o que resta é o contentamento com a nova roupagem das combatentes máquinas colossais, somada a um elenco parcialmente renovado, cuja virtude se concentra na enorme, mas sobretudo, cabível, valorização multiétnica.

Já sem a tarimba de del Toro, acompanhamos nesse novo enredo, Jake Pentecost (John Boyega), filho de Stacker, personagem defendido por Idris Elba no longa de 2013, envolvido na execução de delinquências, após a deserção do treinamento de piloto. Entretanto, sua situação muda de figura quando Mako Mori (Rinko Kikuchi), sua irmã adotiva, agora à frente do grupo Jaeger, precisa de pilotos para duelar com os já conhecidos oponetes Kaijus, recrutando Jake, que se envolve por completo nessa jornada, onde a diligência possui papel importante diante do cenário desfavorável.


O roteiro de DeKnight em parceria com o trio Emily Carmichael, Kira Snyder e T.S. Nowlin é a razão pela qual a produção tem lugar garantido no rol de filmes esquecíveis, não só pela inexistência de uma construção sólida de personagens, mas pela concentração de diálogos que se assemelham a clichês extraídos de literatura de banca do nicho auto-ajuda, tão monstruosa quanto os Kaijus. “Não deixe o que acham de você definir quem você é” e “Mantenha a cabeça erguida” são apenas alguns dos exemplos em que os personagens proferem esses chavões, que não passam despercebidos diante de um desempenho abaixo do defensável dos atores, que não convencem nem na tentativa de neutralização das frases feitas.

Mesmo tendo de presenciar a oposição juvenil entre Jake e Nate Lambert (Scott Eastwood) e o entusiasmo impulsivo da novata Amara Namani (Cailee Spaeny), em que a única função é explicar o senso de família presente no grupo Jaeger diante de desdobramentos ocorridos, o roteiro pobre e esquemático divide espaço como uma deficiência ainda mais assoberbante, que são as imagens geradas por computador, cujo caráter entorpecente não torna a experiência memoriosa, apenas estafante, somada ao som estrondoso, que converte o filme em algo ainda mais desordeiro, em especial nos momentos da batalha em Tóquio, no Japão.

Círculo de Fogo: A Revolta roça a grandiloquência do cinema de grande circuito de Michael Bay, cujos últimos longas da franquia Transformers ratificam o uso desmedido das CGI. Enredado por referências como essa, o filme inutiliza o seu potencial técnico, na vaidade de expor os mais variados efeitos sem que estejam, de fato, filiados ao seu discurso narrativo ou possuam uma razão bem calcada ao seu elevado nível de exposição. Descomedimento que, dificilmente, passaria no corte final de um diretor visionário, ou mesmo sapiente, como Guillermo del Toro.

Círculo de Fogo: A Revolta