Não é à toa que Vingança é um longa dirigido por uma mulher, visto que o seu protagonismo está centrado na exposição do poderio feminino diante de um ato de violência, responsável por gerar uma reviravolta sedenta por represália. Bem enquadrada no cinema exploitation, a trama reacende o viço imagético desse tipo de filme, na ânsia de mostrar quem é que manda. E já adianto que o trabalho da realizadora Coralie Fargeat convence e muito, por saber exatamente como colocar ordem nesse enredo coberto de sangue, sem evocar apelo gratuito.

Somos introduzidos à ardente conexão entre Jen (Matilda Lutz) e o empresário Richard (Kevin Janssens). Ele, casado, resolve levar a jovem a uma localidade pouco povoada para usufruir de sua companhia. Porém, em meio à região paradisíaca e escaldante, Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchède), sócios e parceiros de caça de Richard, chegam cedo demais para um compromisso marcado, instalando-se na luxuosa casa. Na ausência do empresário, Stan se aproxima de Jen, dando início a uma abordagem invasiva, contudo ele é rejeitado pela jovem, decidindo consumar um estupro que tem a condescendência de Dimitri. Todavia, após o ato, ainda ocorre uma tentativa de eliminar Jen, que se reestabelece com o intuito de eliminar os três covardes.

Vingança tem um visual delirante e arrebatador, propiciado por planos em que a luz adentra ao dormitório de Richard e Jen, assegurando o máximo de enfoque às cores quentes que se relacionam com a elevada tensão sexual contida no primeiro ato da trama. Há também a concentração de um fulgor dos mais resplandecentes sobre as faces, inclusive nos planos abertos, que destacam não só as reações dos personagens, mas a aridez das paisagens desérticas. Por fim, a fotografia saturada de Robrecht Heyvaert ajuda na demarcação dos corpos, explorados como poderosas armas de sedução, graças ao seu caráter escultural.


Há um plano fechado numa maçã mordida, que apresenta um apodrecimento causado pela oxidação da região exposta. A putrefação do fruto do pecado é apresentada como metáfora para o adultério consumado por Richard, evidenciado pela negação aos bons costumes e moral monogâmica, nesse jogo intrigante de violência.

Em outras cenas, mais precisamente em planos detalhes, ocorre a análise minuciosa de ações habituais dos personagens, envolvendo nisso o retrato de tipologias de violência. O melhor dos exemplos se dá quando Dimitri come uma guloseima, que se assemelha a um marshmallow coberto de chocolate, pois sua maneira de saborear o doce é tão grotesca, que a aproximação extrema da câmera nos permite encontrar a violência de modo simbólico no ato de se alimentar.

A trilha sonora também é digna de nota por enlevar o espectador, catapultando o ritmo e o potencial de apreensão das cenas, sendo assim uma grande aliada na instauração de sensações. Isso fica claro no momento em que os sócios procuram por Jen, fragmento em que somos guiados apenas por rastros de sangue sinalizados pelo facho de luz de uma lanterna; o som além de indicar um norte, ainda que, inconcluso, no campo imagético, direciona e aguça a adrenalina do público.

A montagem conduzida pela própria diretora ao lado de Jerome Eltabet e Bruno Safar, associa os atos sexuais e a sanguinolência das execuções a uma natureza animalesca. O ser humano ali apresentado é agrupado a várias imagens de animais dos mais distintos, de vermes a aves em performances de voos rasantes, escolha de edição que além de se comunicar com a história, consolida o perfil extasiado de seu enredo.

Apesar de não sabermos de onde esses personagens vêm, a ausência de suas histórias pregressas ajudam a criar um elo mais consistente com o espectador, que anseia pelo extermínio da corja que violentou a jovem, uma vez que desconhecidas suas origens, não temos a nosso alcance informações que poderiam nos levar ao compadecimento por motivos variados. Além de não interferir, esse fator reitera o desenvolvimento da narrativa retilínea de Vingança, disposta unicamente em cumprir sua missão nessa jornada de retaliação, habilidosa devido às características sensoriais oferecidas ao longo da película e também pela magistral aplicação de seu rigor técnico.