Após ser parte da seleção oficial do Festival de San Sebastian, a obra Família Submersa da cineasta María Alché chega a 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E, como parte da divulgação do filme, foi convidada sua protagonista, a atriz Mercedes Morán. Gratificante notar que, assim como o longa de Paul Vecchiali, Trem das Vidas Ou A Viagem de Angélique, o filme de Alché também foca o mundo pela perspectiva feminina, mas aqui na obra argentina entramos no núcleo familiar, e partilhamos pela visão de uma matriarca exausta e solitária.

Família Submersa da Mostra SP conta a história de Marcela, abalada pela morte repentina da irmã. Ainda em luto pela perda, Marcela pratica o malabarismo típico de mães, cuidando dos afazeres de casa e da vida dos filhos, enquanto se desfaz dos pertences do apartamento de sua irmã. Com o marido longe, se apoia em Nacho, amigo de uma de suas filhas, que ajuda consertando e empacotando coisas. E, nestes momentos de dor, Marcela encontrará vestígios das vidas das mulheres de sua família, incluindo sua irmã, erguendo questões de como realmente está vivendo seus dias.

Interessante que o primeiro aspecto a ser percebido ao assistir Família Submersa é a atmosfera claustrofóbica dos ambientes fechados, beirando o clima de filme de terror, sem o mesmo. A direção de arte e fotografia fez um bom trabalho, pois há sempre a sensação de não ter para onde ir dentro do apartamento onde vivem Marcela e sua família. É como se o lar fosse o reflexo alegórico da matriarca: cansada, sofrida e confusa com os acontecimentos da vida. Assim também, pode-se dizer do apartamento de sua irmã, um lugar que aparenta não receber luz.


Somada à essa ambientação, entra a direção de María Alché que com talento, e uma secura áspera que consegue incomodar, mistura o lúgubre e o místico com naturalidade. A morte da irmã de Marcela é um mistério, mas se sabe que ela sofria muito. O pior é que não há ninguém da família de ambas, vivo para compartilhar a dor, ou mesmo buscar esclarecimentos. Todos se foram, a não ser um meio-irmão com quem Marcela não tem grande afeição.

Aí entra a estupenda performance da atriz Mercedes Morán, convidada da Mostra SP. O nível de melancolia da personagem é alto, assim como sua disposição que balança com fluidez entre desencanto, doçura e depressão profunda. Com menos tempo de tela, outro que surpreende, até pela notável presença física, é o ator Marcelo Subiotto que interpreta o marido de Marcela. Na parte final, sua cena na cozinha ao lado da família cantando de maneira vibrante é uma das cenas que encanta ao mesmo que tensiona, devido ao conteúdo lírico.

Assim, para fazer valer toda essa dualidade, da construção ao tratamento, e nas emoções das personagens, com sensibilidade artística a autora María Alché introduz dura realidade e uma forma de mundo dos sonhos, onde Marcela se encontra com seu passado. Enquanto nas cenas da rotina diária, o tom é mais sóbrio, por vezes funéreo; no devaneio surreal de Marcela existe um ar etéreo, mais iluminado e limpo.

São nestas cenas mais espirituais que a diretora deixa claro, tanto a sua protagonista quanto ao espectador, o real abandono e sensação de isolamento que vive Marcela. Sem o marido por perto na hora mais necessária, são em seus encontros com Nacho, onde ela pode escapar de uma realidade a qual ela percebe que não se adapta com facilidade, como se Marcela só pudesse ser algo a mais do que é, ao lado do jovem amigo de sua filha, ou nesse plano celestial dentro de si, onde como uma borboleta, saindo do casulo, é como deveria se sentir, vagueando pelo apartamento cheio de verde como uma floresta.

Esta é a questão que María Alché deixa em Família Submersa: somos fantasmas insatisfeitos na realidade? Talvez, sim.

Woody Allen cansou de dizer em seus filmes, de variadas e memoráveis maneiras que a vida é assim mesmo, insatisfatória. E, na cena final da obra, Alché deixa claro isso, destacando o torpor da melancolia. Como nos filmes, 45 Anos de Andrew Haigh, e em uma das melhores obras de Woody Allen neste século, Café Society, a tristeza é melhor percebida quando o entorno está em movimento.